7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Manchete : O JORNAL DA VILA DO MONSENHOR
enviou em 11/10/2017 18:00:00 ( 56 leituras )
Manchete

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
Já contam 185 anos o nascimento da imprensa em Sergipe. Seria na então Vila Constitucional da Estância o lugar geográfico que acarretaria a mudança para sempre dos rumos da história sergipana: o surgimento do jornal Recopilador Sergipano. Um momento notadamente marcante para o Estado, tão decisivo que se assemelha ao aparecimento da Escola de São Sebastião, a primeira de Sergipe, no ano de 1575, na povoação de Santa Luzia. Dois episódios 257 anos distantes no tempo.

Santa Luzia e Estância, duas localidades vizinhas, a segunda consequência da primeira, ambas de capital importância no despertar da identidade, da autonomia do povo sergipano. Mas a ideia do Monsenhor Silveira de fundar seu jornal não apareceu isolada. Ela surgiu da sua necessidade, da inspiração do seu tempo.

Sabe-se que a imprensa do Brasil foi fundada com a vinda da família real portuguesa, em 1808. O jornal tinha o nome de Gazeta do Rio de Janeiro e saiu em 10 de setembro daquele ano. Antes, algumas tentativas de se estabelecer a imprensa, como em Pernambuco, no início do século XVIII, Rio de Janeiro em 1747 e Vila Rica em 1807, deu-se por malogradas ao serem perseguidas pelo governo português e fechadas.

Na década em que foi criado o primeiro jornal sergipano, surgido um ano após as pressões sofridas por D. Pedro I e que estas culminariam com sua abdicação, vivia o Brasil o Período Regencial. Grupos se digladiavam pelo poder distribuídos em três partidos, ora denominados de Exaltados, Liberais e Restauradores. Os líderes deste último acreditavam no retorno de D. Pedro I, o que eram combatidos pela imprensa livre, até em versos:
Viva Pátria, a Liberdade
E a Santa Religião:
O peito que é Brasileiro
Detesta Restauração

Sopravam ainda os ventos da Revolução Francesa (1789) e, na mesma direção, a Revolução Pernambucana ou a Revolução dos Padres de 1817, eventos que nunca seriam esquecidos pelos libertários brasileiros desde então. Os gritos da Independência e da Liberdade do Brasil, de sete de setembro de 1822, produziam ainda seus efeitos. Infelizmente o país, com a maioria da população com pouquíssima instrução, ou nenhuma, como no caso dos escravos, continuava sendo comandado pelas elites, pelos grandes proprietários. Para piorar, a política centralizadora de D. Pedro I iria desagradar certos setores, como a imprensa, pondo em cheque sua autoridade. Esses descontentamentos fizeram gerar manifestos pelo Brasil. Jornais como a Aurora Fluminense (RJ) e O Carapuceiro (PE), dentre outros, faziam denúncias, combatendo os impropérios do governo.

Sergipe era a jovem Província que tinha se tornado independente da Bahia. Os problemas eram muitos e Estância lutava para ser elevada à categoria de Vila. Atento aos desejos da sua povoação é possível que o Monsenhor também tenha se envolvido nos debates. Quanto aos reclamos nacionais, os estancianos não ficaram aquém dos destinos. Em 1826, reuniões montadas no centro e depois no Bairro Além da Ponte (Bairro Bomfim), revolucionários, adeptos do regime republicano, contavam com o apoio do Padre pernambucano Manuel Moreira, chamando a atenção da população que passaram a “falar francamente em liberdade”.

Queriam a expulsão do Imperador e também a expulsão de qualquer europeu. Porém esse movimento não deixou de ser combatido pelas forças de repressão do Império. Armas com destino à Estância foram apreendidas. A povoação - que recebia informes do dito Padre e que tivera envolvido na revolução de Pernambuco – junto dos revoltosos daqui, formaram o “círculo das associações da Estância”. Essas reuniões aglomeravam grande número de pessoas a ponto de tomarem as ruas, descendo até o rio Piauitinga, se configurando, praticamente, como um movimento de massa. Esses republicanos queriam o “aniquilamento do Governo Imperial” e reivindicavam “como fizeram os Franceses a liberdade e igualdade, a bens comuns para todos” (Freire, 1977). O movimento, tido como criminoso, é contado pelo tenente-coronel Manuel José Ribeiro de Oliveira, oficial muito rico, mas como era europeu morador de Estância, com medo, pediu sigilo ao Conde Lages para que ninguém soubesse que era ele o informante. Os manifestantes foram sufocados violentamente, sendo presos seus comandantes.

A desordem da justiça sergipana parecia campear. Em um jornal de 1829 da Capital do Império, um denunciante, que se intitulava como O Sergipano amigo da verdade, dizia que “os soldados tomam ao almocreve a farinha, do pescador o peixe e dão-lhe muita pancada, e põem a Cidade em sítio; prende-se um meirinho, e na Guarda dão-lhe uma roda de cipó. Em Sergipe finalmente são tantas as manhas, velhacarias, arbitrariedades, despotismo e tiranias”, que ao concluir diz: “as regateiras em Portugal quando brigam dizem umas para as outras – A Justiça de Sergipe te persiga”. O “almocreve”, que se refere “o Sergipano” era uma espécie de tropeiro que andava nas povoações e vilas abastecendo-as com mercadorias. Carecendo, portanto, os problemas sociais da nova Província de imediata solução.

Antes de trazermos à baila novos dados à cerca do surgimento do Recopilador Sergipano, este chegando numa época conflituosa da nação, não podemos deixar, sobretudo, de reconhecer a importância dos trabalhos de Manoel Armindo Cordeiro Guaraná (1848-1924). Nasceu em São Cristóvão e foi importante pesquisador das coisas de Sergipe. Fez estudos na Bahia, formando-se em direito no Recife. Catalogou jornais e revistas do Estado de 1832 a 1908. Escreveu o Dicionário Biobibliográfico, tendo saído postumamente, em 1925. Publicou um estudo, em 1914, intitulado Glossário etmológico dos nomes da língua tupi na geografia do Estado de Sergipe. Seu imprescindível trabalho de catalogação dos jornais mostrou à Sergipe e ao Brasil, o fato de a imprensa do nosso Estado ter surgido em Estância com o Recopilador Sergipano, em 1832. (continua)


(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

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