7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Manchete : O JORNAL DA VILA DO MONSENHOR - III
enviou em 13/11/2017 13:00:00 ( 46 leituras )
Manchete

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
Importa-nos esclarecer que o cônego comprou, no Rio de Janeiro, a tipografia que seria levada ao Piauí. Por outro lado, incorre em erro o autor ao dizer que o referido padre era de Lagarto, assim como o Recopilador Sergipano. No ano de 1835, outro jornal O Correio da Assembleia Legislativa da Província do Piauhy se servia ainda da mesma tipografia.


Assim, o Monsenhor Silveira (ainda um cônego) com alguns meses de experiência tipográfica na Estância, também inaugura, no mesmo ano, a do Piauí, se comportando quase como um típico empresário. Lamentavelmente não descobrimos de onde viera a tipografia que fez surgir o primeiro jornal sergipano. Tudo leva a crer que ela possa ter vindo da Bahia, dada a sua proximidade com Estância, ou até mesmo do Rio de Janeiro como aconteceu com a do Estado do Piauí.

Era Estância uma povoação, quando a Lei de 25 de outubro de 1831 fez junção à Santa Luzia do Rio Real passando a se chamar Vila Constitucional da Estância. Bem evoluída, continha uma população próxima das 13.000 almas. Tinha suas lojas como a do senhor Heleodoro e a de José Francisco de Abreu, ambas no Caminho do Rio e tantas outras da gente rica da Rua do Rosário ou do Pernambuquinho. Muitos sapateiros, alfaiates, pescadores, ferreiros, carpinteiros, além de músicos. Tinha escola pública e experiência no trato com escolas particulares. Nesta modalidade teve, só no ano de 1825, duas dessas escolas.

Estância também possuía tavernas. Taverna ou taberna era uma espécie de boteco presente nas vilas brasileiras em que se vendia carne seca, bacalhau, bebida alcoólica etc., podendo ser também lugar de jogatina. Era geralmente visitado por gente pobre, tropeiro ou por viajante. Reduto em que muitas vezes os escravos se articulavam para fugir ou para se rebelar.

Com um número bem expressivo pelo seu comércio, desses estabelecimentos acima referidos, a Fazenda Estadual criou um imposto contra eles, cuja ação foi reclamada pelos lojistas no próprio Recopilador. Por causa do imposto ocorreram muitas desavenças na vila, sendo imputada a culpa ao Coletor Tenente Coronel Antônio Barbosa da Franca por ter “ultrapassado os limites da lei”. Afinal por ser coletor e ao mesmo tempo de família proprietária de loja, protegia a sua de altas taxações, mas não as outras. Então os cinco camaristas existentes, Antônio Luiz de Azevedo Junior (Presidente), Raimundo de Campos e Silveira, Domingos José de Carvalho, José de Melo Vidal e Oliva e Domingos José Custódio de Matos encaminharam ofício ao Governo da Província mostrando o posicionamento da Câmara e pedindo providências, contra o dito coletor, tendo se comprometido o Conselho Geral da Província de enviar a inspetoria para checar a denúncia.

Quando Antônio Fernandes da Silveira fundou o Recopilador Sergipano era deputado de primeiro mandato por Sergipe e a imprensa brasileira tinha conquistado sua liberdade de expressão. O deputado Silveira foi combativo ao fazer defesa de Sergipe, mostrando suas riquezas, como no caso de ter defendido a tese de existir metais e pedras preciosas onde pretendia fundar uma Companhia de Colonização, Agricultura e Mineração para esse fim em Itabaiana Grande e Canindé. Consta no próprio Recopilador Sergipano a defesa inconteste dos comerciantes sobre os prejuízos por eles enfrentados nas barras descuidadas e arruinadas da Província, fazendo-os perder, muitas vezes, suas mercadorias nos rios. Sendo um comércio muito dependente de outros de maior potência como o da Bahia, rebateu a emenda do deputado Perdigão que queria obrigar “aos Proprietários a pagarem Direitos de gêneros não vendidos”. No ano de 1839, o Monsenhor Silveira se contrapôs a uma denúncia endereçada ao Presidente da Província José Pacheco. Este é acusado de ter recebido 10:000$000 (dez contos de réis), um valor muito alto na época, com o objetivo de favorecer o desembarque de escravos nos portos sergipanos. Refutou Fernandes que a informação era caluniosa não tendo entrado qualquer desembarque de africanos nos portos. Essas denúncias eram recorrentes, a própria Estância já tinha sido acusada de tráfico de navio negreiro em face do descalabro da lei.

O Recopilador Sergipano ia ao público estanciano às quartas e sábados. Esses dias eram bem solicitados dos diversos jornais dessa época e que pareciam seguir os mesmos do iniciador Gazeta do Rio de Janeiro, de 1808. O Recopilador possuía quatro páginas e media aproximados 29cm x 23cm, praticamente do tamanho de uma folha A4 atual. Continha as páginas divididas em duas colunas, também um formato da maioria dos periódicos de todo o Império. Como homem de poder, nas suas muitas viagens de idas e vindas, de praxe, sempre se fazia acompanhar de um bom número de escravos. Certa vez chegou a entrar na Bahia, a bordo de um navio, com um total de cinco escravos!
Mas a quem se dirigia o Recopilador Sergipano? Quem eram seus possíveis leitores? Fazendo uma rápida análise de como andava a educação em Sergipe, notamos que em todas as vilas ela se encontrava em condições bastante precárias, da mesma forma na capital. Não havendo escola para meninas, em fevereiro de 1831 uma lei do Conselho do Governo da Província determinava sua criação. Porém ainda em 1833 falava-se na dita criação, pelo menos na Vila da Estância. Esta, como Santa Luzia, possuía sua Cadeira de Gramática Latina há décadas.

De acordo com os dados de 1825, colhidos por Luiz Mott no livro Sergipe Del Rey-População, Economia e Sociedade, Estância e Santa Luzia, que eram uma coisa só, tinham 6.303 escravos, representando 48,7% da população. Não é de duvidar, que sete anos depois, quando o Monsenhor lançou o Recopilador, esse dado não tenha ficado muito abaixo. No mesmo livro podemos constatar que em 1834, Sergipe possuía um percentual escravo de 29,8%. Imaginamos um dado não muito diferente dois anos antes. Daí, não tendo os escravos direito à escolarização e contando ainda com uma população esmagadoramente analfabeta, isso devido ao lento processo de educação, o surgimento da imprensa na dita Vila foi, sem sombra de dúvida, um grande feito.

Assim, seus leitores deveriam ser a elite intelectual estanciana, talvez ligada ao poder político local, algo que deveria se repetir por todo o Império. Essa elite intelectual deveria ser esmagadoramente masculina, pois numa sociedade que mais convergia para as atitudes machistas, a mulher “estava reclusa no interior dos lares”, como bem afirmou a historiadora Maria Thetis Nunes. (continua)


(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

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