7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Cultura : O JORNAL DA VILA DO MONSENHOR: A FESTA DOS 100 ANOS (VII)
enviou em 06/02/2018 10:10:00 ( 69 leituras )
Cultura

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
Final de 1931, começa a se ventilar a ideia de comemorar o primeiro Centenário da Imprensa Sergipana. Estância possuía três jornais circulando semanalmente: A Razão, A Estância e Voz do Povo. Foi este último que encampou o movimento, fazendo um apelo ao Estado para a data não passar despercebida.


Convidou os dois outros semanários a uma reunião. Raimundo Nóbrega de Mendonça, o Intendente, também foi convidado.

Como era de se esperar a data marcada para essa comemoração foi a mesma estipulada por Armindo Guaraná: 7 de setembro.
A reunião, realizada no Grupo do Gumersindo, teve presenças de dr. Jessé Fontes, do Intendente, dos jornalistas Alfredo Silva, do jornal A Estância, Lauro Santana e Coriolano Alves de Santana, ambos da Voz do Povo; Omer Mont’Alegre pelo Sergipe-Jornal de Aracaju, João Lima da Silveira, Clodoaldo Alencar, Urbano Neto e tantos outros. Nessa reunião esteve ainda presente o “decano dos jornalistas estancianos”, o Monsenhor Vitorino Fontes.

Ficou acordado que os atuais jornais iriam editar um número mais antigo dos primeiros semanários da cidade, como o próprio Recopilador, O Pharol, Reverbero ou o primeiro número da A Razão. Também fora aprovada a construção de um obelisco, nele contendo um medalhão, em bronze, da efígie do Monsenhor Silveira e do jornalista Gumersindo Bessa. O obelisco seria construído com pedras de granito do Piauitinga e do mármore de jazidas de Sergipe. Assim, a comissão organizadora em prol do Centenário da Imprensa estava montada e figurava o Monsenhor Vitorino como presidente. Muito disso não se efetivou, inclusive o obelisco. Decidiu-se homenagear Gumersindo em outro momento. Dada as condições financeiras, o projeto do monumento teve que ser mudado.

Os meses que antecederam o evento foram recheados de reuniões. Numa delas, realizada na Biblioteca Pública do Estado, em Aracaju, estiveram presentes Nobre de Lacerda, presidente do Instituto Histórico, além de Carvalho Neto, da Academia Sergipana de Letras, Epifânio Dória, o Bispo D. José Thomás, jornalistas e intelectuais. Tinha o objetivo de angariar fundos para o “festival da imprensa”, programado para três dias, bem como levantamento de recursos para o referido monumento.

Vale registrar que na história dos periódicos da cidade houve muitas queixas de jornalistas à cerca das dificuldades para manter um jornal. Eram problemas relacionados às questões das assinaturas, cujos assinantes nem sempre fiéis, eram alertados muitas vezes nos próprios semanários; dificuldades para convencer lojistas, por exemplo, a anunciar suas propagandas, sem contar os empecilhos oriundos da engrenagem política vigente. Com relação a esse quesito já reclamava o Recopilador Sergipano: “tem-nos por vezes taxado de anarquista, só porque não veem dominar suas doutrinas em o nosso Periódico”. Um dos momentos mais expressivos da imprensa estanciana ocorre na década de trinta com a veiculação de três jornais a disputar os poucos leitores citadinos. Embora nos 800 tenha também ocorrido a simultaneidade dessa mesma quantidade, nenhum momento foi tão duradouro como dessa época, cuja concomitância chegou a quase vinte anos.

Devemos destacar que a convivência dos jornais da cidade nem sempre foi amistosa. Como geralmente cada um deles era patrimônio de algum político - quando não, representava um braço - serviam de jogatina nas discussões. Haviam disputas acirradas como a que aconteceu nos inícios dos anos de 1920 entre A Razão e o Sul de Sergipe e dos anos de 1950 entre a Folha Trabalhista, de Nozinho Macedo e A Estância, de Pedro Soares, o “porta-voz de Júlio Leite”, segundo o próprio Nozinho. Esse episódio culminou em crime, como o tiroteio em praça pública. Agora a imprensa estava um tanto afetiva por causa do evento de setembro.

Vivia o país sobre o governo provisório de Getulio Vargas, após o golpe por ele perpetrado, em 1930, quando derrubou Washington Luís. Enquanto eram preparadas as festividades para o primeiro centenário da imprensa sergipana, ocorria em São Paulo a Revolução Constitucionalista, havendo, por precaução do Estado, até restrições de gastos; o que fez atrasar a ereção do monumento. A imprensa local se ressentia com as mortes dos paulistas. Numa das reuniões resolveu-se adiar a festa devido ao “movimento que ensanguenta o país”. Ainda alertava Voz do Povo que não “é digno que se festeje qualquer fato nacional, no momento em que o país se envolve na maior das carnificinas”. Para completar, havia Sergipe perdido, no dia 10 de agosto de 1932, o escritor Clodomir Silva, um dos mais expressivos intelectuais que fez publicar uma obra extraordinária: o Álbum de Sergipe.

Como vimos o centenário da imprensa sergipana coincidiu com um momento tenso da história brasileira. Por outro lado Sergipe estava apavorado por causa das histórias do cangaceiro Lampião. Em Estância, por exemplo, surgiu um boato que o bando se encontrava próximo da fronteira com a Bahia e que por isso os estancianos, para não serem surpreendidos, estavam se armando até os dentes! Prova disso é que Nozinho Macedo, da sua propriedade, enviou homens fortemente armados para a cidade que ficaram à espreita do bando de Lampião por muitos dias em pontos estratégicos. Por uma coisa ou por outra, no dia sete de setembro, somente foi colocado um “retrato” do Monsenhor no Grupo Escolar e apenas a pedra fundamental do monumento na Praça Barão do Rio Branco.

A partir daí começaria uma longa espera chegando a impacientar seus idealizadores. A própria comissão anteriormente formada cruzou os braços, se desintegrou. Os redatores da Voz do Povo passariam a adular as autoridades, tanto municipais, como estaduais, que desinteressadas, não davam a devida atenção.

Somente um ano depois, com a ajuda do novo Intendente Francisco Macedo, precisamente em 31 de dezembro de 1933, foi inaugurado o belo monumento contendo a efígie do Monsenhor, na dita praça. Infelizmente, o esforço dos jornalistas não suportou os golpes de picareta e da ignorância da administração Valter Cardoso, ao destruir o referido monumento, no final da década de 1970, por razões banais.

Ao analisar as dificuldades enfrentadas pelos jornalistas e intelectuais de 1932 na construção dos festejos do Centenário da Imprensa Sergipana, nos vimos refletidos ao tentarmos celebrar “Estância: Lugar da Imprensa de Sergipe”, quando seu jornalismo marcou históricos 185 anos. Apesar de um velado boicote municipal, vencemos a ignorância, ao contarmos com o apoio de instituições sindicais, pequenos comerciantes e amigos. A festa, que teve idealização minha e do jornalista Magno de Jesus, agora é história. Teve sua realização no Jardim Velho, em 23 de dezembro de 2017, com números musicais, poesias, teatro, cordel, além das presenças de jornalistas, radialistas e das artes plásticas, cujo artista pintou quadros com temas locais.

Por fim o Recopilador Sergipano cumpriu uma tarefa crucial em Sergipe da década de trinta do século XIX. Um jornal surgido numa pequena vila brasileira, “a mais populosa, e comerciante de toda a província”, no dizer de Aires de Casal, que ao ostentar certa riqueza por “vários objetos mercantis” exportados, assinala com seu jornal, em 2 de maio de 1832, um verdadeiro manifesto da liberdade sergipana. Assim, dando provas de uma primorosa riqueza cultural, a Vila Constitucional de Estância, com a invenção de seu periódico, passa, de certo modo, a reinventar a forma de ser e de fazer política do povo sergipano.

Por ora recai sobre a cidade, tão emblemática para historiografia do Estado, a reconstrução de um novo Monumento da Imprensa, já que o antigo da Praça Barão marcou, - nas rodas de conversa em seus pilares - o imaginário dos estancianos por quase meio século.


(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância. E-mail: acrisiogoncalves@hotmail.com

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