7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Opinião : ADÃO, O NEGRO
enviou em 14/11/2019 09:30:00 ( 27 leituras )
Opinião

* Lelê Teles
Os artistas brancos habituaram-se a pintar Adão à sua imagem e semelhança, branquificado.
Os escribas que criaram a exegética alegoria adâmica não se preocuparam em racializar o Primeiro Homem, de modos que ele ficou em nosso inconsciente assim, pálido, como o pintaram.
No entanto, observando-o de perto, vejo que ele guarda grande semelhança com o moderno homem negro periférico ocidental (ou ocidentalizado); com um branco, nem pensar.


Ponha teus óculos, diligente internauta, e analisemos juntos:
ao expulsar o Primeiro Filho do paraíso, em verdade Deus botou o cabra de casa pra fora, e sob argumentos muito frágeis. Parecia que ele só esperava um pretexto.
Decisão rara nas famílias brancas, admitamos.

O macho branco, mesmo quando comete graves desvios de conduta ou de moral, os pais costumam enviá-lo a outro macho branco, especialista, para desentortar-lhe a espinha: seja um terapeuta, um guru transcendental ou, mesmo, quando é o caso, o envia para uma clínica de recuperação para adictos.

Na certeza de que ele voltará ressocializado para o seio doméstico.
Porém, como ocorre com o negro periférico de nossos dias, Adão não teve chances.
E o pai, você sabe, não expulsou apenas o filho rebelde, juntos foram a nora e os netos.
Durma com um barulho desses.

Sem teto e sem herança, essa Primeira Família foi condenada a vagar pelas ruas vazias de um lugar ignoto, longe do Paraíso, a mendigar o sustento que o patriarca os negara, dormindo sob as marquises copadas das oliveiras, tendo como curto cobertor o papelão das folhas secas.
Conheci muitos pais como esse pai de Adão, e conheço muitos homens e mulheres nas mesmas tristes condições em que estiveram essa Primeira Família.

Toda vez que vejo um mendigo na rua, sob uma marquise, ao relento, lembro-me da infelicidade deste Primeiro Homem, o pioneiro de todos os deserdados e de todos os moradores de rua.
Por isso, creio que esse Adão simbolizava mesmo um negro periférico ocidental e, não, um macho branco como fora pintado.

Porque se Adão tivesse sido um macho branco, ele teria direito a infância e lamberia, criançamente, um delicioso sorvete de clorofila sob a sombra frondosa das primeiras árvores, no Jardim do Paraíso.
E, como as crianças brancas, ele brincaria, todos os dias, sempre a gargalhar.
Nos finais de semana, o pai o faria voar, sentando num banquinho atado a cordas, em um balanço improvisado, pendurado num galho firme na grande e sagrada Árvore da Sabedoria e do Conhecimento.
Mas, desgraçadamente, Adão não foi menino, não teve infância; Adão não foi criança, Adão já nasceu adulto.

Autêntica metáfora de um menino negro periférico.
Os meninos negros periféricos, você bem o sabe, se adultificam desde a tenra idade, forçados a substituírem o pai ausente.

Ainda pequeninos, e já adultificados, são forçados a trocar as brincadeiras pelo trabalho pesado: carregam carrinhos em feiras, se esfumaçam e se adoecem no inferno quente das carvoarias, distribuem panfletos, cospem fogo e fazem malabarismos nos sinais, cuidam dos irmãozinhos ainda menores que eles em casa, fazem comida, lavam roupas, limpam casa...
E são, eles, esses meninos adultificados, quem consolam as mães quando elas chegam, tarde da noite, fatigadas e desesperançadas do trabalho árduo.
Aliás, se Adão fosse um macho branco ele seria criado pelo pai e pela mãe, pela famosa família tradicional.

Mas não, Adão, qual um menino negro periférico, tinha em casa apenas a figura de um dos genitores, ocupadíssimo por sinal, e que só aparecia de vez em quando e para lhe dar broncas.
Aí você vai me dizer: "ah, mas em verdade os meninos negros periféricos estão mais acostumados a convivência materna, os pais são os primeiros a pularem fora".
Sim, mas veja que tudo numa alegoria é amplificado e criado de forma tal para dar um nó na mente de leitores apressados.

Fosse criado pela mãe, Adão teria amor e carinho e, não, apenas broncas, reprimendas, regras e admoestações como os teve do pai.
Para deixar claro a todos nós que veio ao mundo apenas para sofrer e ensinar-nos a inútil e cruel didática da sofreguidão.
O infeliz Adão é o único ser de toda a criação que não teve uma mãe.
Os filhos da mãe não deixaram o desgraçado sequer ter uma mãe!

Quando o pai o expulsou de casa, com toda a sua família - nu, sem um mísero bolso pra guardar uma moeda, com uma mão na frente e outra atrás, como se diz hoje - o velho ainda lhe deu um castigo, condenando-o a trabalhar, sabe deus onde, para sustentar os seus arrancando suor do próprio rosto.

Logo, para Adão, o trabalho, longe de ser um sinal de prosperidade e prazer, era um penoso castigo.
O trabalho danifica o homem!

Sabemos que o trabalho dos machos brancos são uma dádiva: suar não suam, porque sua labuta é feita à sombra ou arejada por ar-condicionado; quer dizer, trabalhar é uma forma de dizer, em verdade eles estão por aí a dar ordens, assinar papéis e carimbar documentos.
O trabalho adâmico, relegado como um castigo, o que arranca suor e lágrimas, está reservado ao negro periférico.

Sim, não quero convencê-lo, mas estou convencido. Adão era uma alegoria do futuro homem negro ocidental periférico.
Foda isso.

Pensei em de tudo isso ao lembrar-me de Dona Plácida. Plácida significa calma, serena, em paz. Mas a velha teve uma vida atribulada e infeliz, o seu nome era mesmo uma cruel ironia.
Machado de Assim resumiu assim a vida da pobre senhora, no capítulo LXXV do Dom Casmurro: "é de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: - aqui estou. para quê me chamaste? e o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal ou não comer, andar de um lado para o outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia".

Sim, por mais que isso possa te intrigar, filho do homem e da mulher, Dona Plácida era uma Eva.
Finalizo com esse aforismo meu, que chamo de afrorismo: Deus é a mais perfeita criação do homem e, o homem, a mais imperfeita das criaturas de Deus.
Palavra da salvação.


* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

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