7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Cultura : FEC: MÚSICA CONTRA O CHUMBO DA DITADURA - IV
enviou em 17/11/2019 17:40:00 ( 15 leituras )
Cultura

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
Com uma rede escolar ainda em formação, a educação estanciana avançava lentamente, pois naquele mesmo ano de 1965, os dados do IBGE mostravam que cerca de 2.500 meninos, com idade escolar de 7 a 14 anos, não iniciava os estudos por falta de escola.


Outro problema que Estância enfrentava era o da prostituição. Havia nesses anos um considerável número de cabarés, cuja concentração chamava a atenção da população, que incomodada, denunciava o descalabro. Eles estavam presentes na rua Camerino, Formosa (hoje, rua Manoel Rodrigues do Nascimento), rua Capitão Francelino (anteriormente rua do ABC, que desde 1920 já era zona de casas de prostituição), Liberdade e Praça Sete de Setembro, sem contar as boates da Capitão Salomão (principal rua do centro). Escandalizada, narrava a imprensa que, em um dado fim de semana, dos “bares” da própria Capitão Salomão, famílias “vindas de algum cinema” chegaram a flagrar “uma mulher com um vestido que mais poderia ser usado por uma criança: a saia não lhe chegava, sequer, ao meio das cochas”. No entanto, o colunista, compreendendo as mazelas sociais de seu tempo, ponderava: “Não estamos reclamando o seu fechamento ou um combate sem trégua, policial, à prostituição. O problema sabemos ser da estrutura da sociedade e não um problema superficial, sem raiz, que possa ser eliminado com polícia”. Essas casas seriam fechadas por determinação da polícia e os novos cabarés só poderiam ser abertos nos arredores. Por enquanto somente o famoso “Toca da Onça”, da rua do Limoeiro (atual Riachuelo) ficaria aberto. Contudo, mesmo naquele ano, em mais uma artéria próxima aos prostíbulos anteriormente fechados, surgiria um “dancing”, localizado na antiga rua da Chapada que costumava cobrar uma quota dos dançarinos. Por ali os moradores podia ver “a afluência” de “mariposas”. Aquilo seria motivo de mais uma denúncia por parte da comunidade, pois sabiam que era na verdade um cabaré se passando por danceteria. Assim, as casas de prostituição estancianas – costume de mais de um século - continuariam resistindo até mesmo ao encalço policial.

Como qualquer cidade em desenvolvimento Estância não deixava de absorver a moda dos grandes centros. Entrando num certo estilo carioca, em 1967 a cidade se deparava com a minissaia. Atraindo muitas jovens Brasil à fora, do Paraná um deputado da assembleia legislativa daquele estado fazia duras críticas ao seu uso: “é um símbolo do afrouxamento moral dos nossos tempos”. Por aqui, uma colunista chegaria a dizer que foi “tremendo choque” que a cidade sentiu “diante da minissaia”.

Mas a cidade precisava resolver muitas coisas. No ano de 1966, continuava sem água encanada e precisava calçar algumas ruas do centro. Para se iniciar os serviços de instalação da rede de água, primeiro era preciso instaurar a caixa d’água. O projeto apontava sua instalação na Praça Barão do Rio Branco, mas por haver reação de populares e da imprensa se definiu construí-la na já citada rua da Chapada (atual Veríssimo Viana), onde hoje se encontra. Porém, a água encanada só viria mais tarde.

Nessa década de 1960 também sonhavam os estancianos com a construção da estrada que ligaria a cidade à praia dos Abaís. A futura rodagem teria sido idealizada, nos anos 1950, pelo prefeito Humberto Ferreira. Começaria uma grande cobrança por parte da imprensa até sua efetivação, inclusive havendo constantes citações do jornalista Carlos Tadeu (que escrevia nos três jornais da cidade), em que uma delas dizia: “Faltam apenas mais ação e boa vontade dos Poderes Públicos.” Sem sequer iniciar a referida estrada, em versos, se antecipava a poetisa Francisquinha Assunção: “a Estância já é Rainha dos Abaís”. Enquanto a esperada estrada não saía do papel, no verão, alguns estancianos se valiam do banho de maré da “praia do Crasto”. A rodovia para o tão decantado Abaís só seria inaugurada no final da administração de Raimundo Silveira Souza, em 1971, embora algumas pessoas já se dirigissem para lá anos antes da inauguração. Inicialmente denominada “Estrada Flaviano Lima (Bedóia)”, esta passaria a redefinir para sempre o turismo estanciano. Por ter sido asfaltada na década de 1980, infelizmente é uma das estradas mais depauperadas do estado sendo, por isso, insistentemente reclamada.

No que tange à cultura, também nos anos 60, a Escola Técnica de Comércio de Estância (ETCE), iria se inserir no meio social da Cidade Jardim como um importante centro educacional. Ela se tornaria um dos principais vetores culturais da década. Fundada no começo de 1950, teve sua edificação financiada por políticos, empresários e pelo povo numa campanha intitulada “Amiga da Estância”, organizada pelo economista e professor Oscar Fontes de Faria. Esse professor seria o primeiro diretor da ETCE. Funcionou inicialmente no prédio onde hoje é a Sulgipe, localizado ao lado da Igreja do Rosário. Somente em 1954 teria seu prédio próprio. A ETCE foi uma escola de nível secundário e formadora de técnicos-profissionais. Com a fundação do diretório dos estudantes e contando ainda com um quadro seleto de professores, estes passariam a mobilizar a juventude estudantil em prol da poesia, do jornalismo, do esporte. Seguindo os embalos dos novos rumos musicais do país iriam realizar muitos eventos culturais, sobretudo na música.

Em 1960, estudantes da dita escola inovaram ao promover o show “Bossa Nova” no cinema São João, passando depois a se apresentar em outras cidades. Nele, Péricles Morais era a voz “bossa nova” do show. O roqueiro estanciano J. Garcez passaria a ser chamado “rei do rock”, por ser um digno representante do jeito Elvis Presley de ser. Devido à influência do rock, em Estância passaria a surgir a moda dos “cabeludos”. Um símbolo dos cantores da época. A moda era tão grande que, em 1967, faria Luiz Gonzaga cantar, com um tom de crítica, a música “Xote dos Cabeludos” (Luiz Gonzaga-José Clementino).

Além de Elvis, o rock passou a ser difundido pelos integrantes das bandas britânicas de Rock’n’roll, dos anos 60, como os Beatles e Rolling Stones. Os cinemas estancianos devem ter ajudado na divulgação dessa nova onda, por haver filmes retratando a nova forma de música como o filme Os Reis do Iê, Iê, Iê, de 1964, dos Beatles. No Brasil, nos meados dos 60, um retrato fiel desse estilo se daria com o surgimento da Jovem Guarda, capitaneada principalmente por Roberto Carlos. Aqui, os cabeludos estancianos também fariam sucesso. (continua)

(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância
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