7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Cultura : FEC: MÚSICA CONTRA O CHUMBO DA DITADURA - V
enviou em 17/11/2019 17:50:00 ( 15 leituras )
Cultura

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
Inserido no clima junino de 1968, um dos “cabeludos” da cidade, o roqueiro Valter Batista, apelidado como “alucinado” teve a cabeça golpeada por um busca-pé que o fez pegar 10 pontos, tirando-lhe dos palcos.

O jornalista Avlis (Vanderlei Silva) que escrevia no semanário Folha Trabalhista, em sua coluna Só... Rádio..., mostrava que a maior preocupação do artista era a cabeleira, pois teria de se afastar “temporariamente dos palcos” já que não poderia “apresentar-se daquela maneira (sem cabelos longos) às suas fãs”. Brincava também o mesmo colunista com Edmundo (o Brasa), outro artista local que teria ido à Lagarto para proteger seus cabelos do busca-pé. Na semana seguinte a mesma coluna informava que, de acordo com o Brasa: “a grande receita para o seu sucesso são os cabelos”. Por isso a Jovem Guarda era quem ditava o estilo musical e até mesmo gírias como “broto”, “mandando brasa”, “bacana”, então usadas na cidade.
Nesse ano também a efervescência musical porque passava a cidade faria surgir diversos grupos. Como se houvesse uma necessidade alucinante de extravasar emoções reprimidas – contando como pano de fundo a odiosa Guerra do Vietnã e, no Brasil, a repressão militar - a juventude queria expressar suas angústias, suas dores. Assim, a música parecia o antídoto.
Naquele 1968 seria a orquestra Unidos em Ritmo a sensação do momento. Segundo os cronistas locais, a orquestra passaria a ser o melhor conjunto musical da região e um dos melhores do nordeste. Esse conjunto se constituía de 13 componentes e era muito respeitado onde tocava. Surgida em 1967, a orquestra estanciana teria sido idealizada por Antônio Pimentel e Glaudiston Oliveira. O Gumercindo e Seu Conjunto, foi outro grupo notável de Estância, tornando-se muito famoso, fazendo parte das festas dos clubes da região. Mais tarde esse conjunto mudaria de nome e se chamaria Os Cometas. Iria surgir, em 1967, o conjunto musical Jovens Brasas formado por alunos da Escola de Comércio. Já nos finais de 1968, apareceria Os Anjos, que tinha como empresária a cantora Gilnar. Costumavam esses grupos se apresentar nas festas das escolas, no Cruzeiro Sport Clube, no Grêmio União Têxtil, no Cassino, na AABB.

Toda essa explosão artístico-musical, composta de cantores e instrumentistas parecia demonstrar que Estância agora era a Cidade da Música. Por isso era preciso fazer algo grande. Algo como... um festival da canção!

Nesses anos a Cidade Jardim também começava a ser notada nas artes. Judite Melo, que havia descoberto seu próprio talento nos inícios dos 60, já com suas fantásticas esculturas barrocas, atraía a atenção da imprensa nacional. O carioca O Jornal, de 19.02.1967, publica o artigo “Ressurge o barroco no barro da Estância”. O jornalista Queirós Campos mostrava ser conhecedor a obra de Zé de Dome: “outro notável artista estanciano”. Em seu texto afirmava que “Maria Judite trabalha com barro de especial qualidade que, nas suas mãos, assume as mais curiosas formas de escultura. Não copia: inventa”. Encerrava destacando que “é a melhor santeira do barro sergipano”. Essa reportagem abriria os horizontes - da hoje nonagenária Judite Melo - a níveis até internacionais.

Nos esportes, os embates do Estanciano Esporte Clube (Canarinho do Piauitinga) e do Santa Cruz (O Azulão do Piauitinga), os dois clubes de futebol da cidade, e também os jogos com os clubes visitantes, era mais um espetáculo. A partir dos meados de 1960, quando ambos faziam parte do Campeonato Sergipano, esses clubes passariam a ser notícia nas colunas esportivas de muitos jornais brasileiros.

Em 1º de maio de 1967, surgiria, em Estância um importante patrimônio cultural: a Rádio Esperança. A emissora seria a primeira do interior de Sergipe. As outras quatro existentes no Estado estavam concentradas na capital: Rádio Difusora (1939), Rádio Liberdade (1953), Rádio Jornal (1958) e Rádio Cultura (1959). Surgindo com uma formatação idêntica às rádios da capital e as de âmbito nacional a emissora faria entrar em sua programação os shows de calouros e diante da expressividade musical estanciana também formaria seu Cast de artistas.

Dessa trupe, segundo a imprensa local, faziam parte, em 1968: Maria José, Arlene Teixeira, Maria Cecília, o humorista e cantor Francisco de Assis (Tremendão), Nailton Teixeira, o sambista Laerte Barbosa. Também no referido ano, passou a integrar o elenco da mesma rádio a cantora sergipana Denilza Miranda. Ela teria sido convidada para interpretar canções românticas. Considerada a “Cinderela Sergipana”, a imprensa logo a denominaria “rouxinol do sul de Sergipe”.

Fazia parte da programação da ZYC 925 - prefixo inicial da Rádio Esperança - o “Programa de Calouros”, “Serestas e Seresteiros” e “Prata da Casa”. Esses programas contavam com a participação dos cantores e conjuntos musicais da cidade. Devemos salientar que mesmo antes do aparecimento da rádio, os artistas estancianos e de renome nacional se apresentavam no palco do Centro Educativo Gonçalo Prado, na época em que ainda era apenas um cinema. O carnaval, festa onde figuravam blocos, escolas de samba e às vezes trio elétrico, os artistas da Princesa do Piauitinga se habituaram em apresentar seu talento, levando para as ruas músicas da própria autoria.

Mas o país vivia uma ditadura. Talvez por haver entendido o recado truculento dos militares no país, na capital e na sua própria cidade - levando à prisão seus líderes, além de terem feito desaparecer outros - os estudantes silenciavam. Embora fosse uma minoria os secundaristas (equivalente ao Ensino Médio), em tempos anteriores pareciam mais engajados. Prova disso fora a luta pela implantação, em 1960, da Junta do Trabalho ou pela criação do posto do DNRu (Departamento Nacional de Endemias Rurais) da cidade, cujo índice de esquistossomose era alarmante e beirava os 90%; luta para dotar o Hospital Amparo de Maria de um Banco de Sangue. Anos depois a juventude estudantil seria testada. Era vez de exigir o direito à meia entrada nos cinemas. De acordo com o Jornal do Brasil (6.03.1966) do Rio de Janeiro, essa lei seria fruto de uma Portaria da COFAP (Comissão Federal de Abastecimento e Preços), de 1961. (continua)

(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância


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