7º ENCONTRO DE FILARMÔNICAS EM ESTÂNCIA

Manchete : PRIMEIRA CORDELISTA DE SERGIPE, RADICADA EM ESTÂNCIA JÁ PRODUZIU MAIS DE SETENTA CORDEIS
enviou em 01/08/2014 16:10:00 ( 2351 leituras )
Manchete

É até clichê dizer, mas a cada dia as mulheres dominam mais e mais espaços reservados a homens. E é num ambiente amplamente masculino que a nossa entrevistada de hoje ocupou seu espaço. Intitulada a primeira cordelista do sexo feminino em Sergipe, “dona” Salete Nascimento, nascida no pequeno povoado do município de Nossa Senhora das Dores, hoje é um nome de referência nesse gênero tão próprio da cultura nordestina.

Sócia fundadora do Clube dos Poetas Sergipanos, a escritora levou a sua bagagem cultural para diversos países de língua portuguesa através da revista “Na Trilha do Descobrimento do Brasil”. Nesse bate-papo com o CI, a poetisa e cordelista conta um pouco do início de sua carreira e da sua paixão pela literatura de cordel.

[b]Cultura Interativa: Como surgiu o interesse pelo cordel?


[/b]Salete Nascimento: O interesse surgiu desde a infância. Eu gostava de rimas, meu pai lia bastante cordel para a gente. Eu aprendi a ler praticamente pelo cordel. A partir de cinco anos eu tinha curiosidade de saber o que tinha naquele livreto. É uma coisa que vem da infância.

Quando eu quis fazer cordel, a conversa era a mesma. É coisa para homem, mulher nunca faz cordel. Aí me calei, comecei a fazer poesia. Escrevi meu primeiro livro de poesias, “Nas Asas do Vento”. Lancei o livro em 2003. Aí falei, agora ninguém me segura, eu vou lançar é o meu cordel. Fiz uma história real, “O triste fim de Raimundo”. De lá para cá não parei mais. É uma coisa nata. Eu gosto de fazer ficção, aventura. Tudo me fascina no cordel

C. I.: Quais são suas grandes influências no cordel. Ou o fato de ser mulher, você não teve nenhuma influência masculina?

S. N.: Não tive influência nenhuma. Eu gostava de ler e lendo eu me identifiquei com a leitura. Eu achei que não era coisa apenas masculina, era coisa de mulher mesmo. Daí eu fiz o primeiro, meu esposo não disse nada, disse ‘tá bom, tá bonito. Mulher, você tem coragem?”. Eu disse que tinha e fui adiante.

C.I. Quantos cordéis a senhora produziu, tem idéia?


S. N. Numa faixa de setenta, por aí.

C.I. E essa parte de venda, de reconhecimento de trabalho, como a senhora analisa?


S. N. Não é essa coisa toda. A gente trabalha por gostar, por querer, mas a gente não tem esse reconhecimento todo. O reconhecimento de ser a primeira mulher cordelista me deixou vaidosa porque fui uma mulher ousada. Acho que tem campo para todas as mulheres, porque as mulheres estão com tudo. A mulher precisa abrir a mente e botar o que tem para fora.

C.I. Como a senhora acha que está o cenário do cordel em Sergipe. A senhora tem contato com os demais cordelistas do estado?

S. N.Eu tenho contato com todos pois sou vice-presidente da Associação de Cordelistas do estado. Graças a Deus está se saindo bem. Os cordelistas estão sendo reconhecidos. O nosso amigo Ronaldo Dória, seu Pedro Amaro. Tem uma turma muito boa. Tem uma senhora Alda, que me chama de mestra, está com o trabalho dela. Está melhorando. É a nossa primeira cultura, nossa primeira literatura, os nossos primeiros escritos foram os cordelistas, trazidos pelos portugueses, trazidos na época das Capitanias Hereditárias, espalhando-se por todo o Nordeste. Está melhorando, mas era algo muito preparado. O cordel é nordestino, nós temos que lutar pelo cordel. O cordel é nosso, a gente tem que lutar por essa beleza.

[b]C. I. Quais são os temas que a senhora mais se utiliza? São temas regionais, a senhora tenta trabalhar com temas mais gerais também? Qual seu foco de inspiração em relação a temas?

[/b]
Eu tenho muitos cordéis que não são da minha inspiração. São cordéis solicitados. 100 anos de alguém. O SEBRAE me solicita, o INSS também. Uma cidade como a Barra de São Miguel, Nossa Senhora das Dores. Tem certos cordéis que a gente não põe para vender. Aí não é da minha intuição, mas dá muito trabalho pois preciso pesquisar muito. Mas o que eu gosto de fazer é ficção, aventura. Na hora que me sento, vem o nome, já vem tudo. E também faço temas nordestinos. Eu faço os políticos politiqueiros na visão dos cordelistas.

C.I. Quanto tempo a senhora leva em média a senhora leva para produzir um cordel?

S.N. Quando é da minha inspiração eu me sento e faço trinta, trinta e três estrofes. No outro dia eu faço a correção. Dá trabalho porque vou passar para o computador, fazer a boneca para o cordel. Aí gasto mais tempo.

C.I. Qual o trabalho que a Associação dos Cordelistas e Repentistas?

S.N. Foi justamente para ver se tinha mais influência o cordel na sociedade. Estava tudo muito parado. Aí tentamos juntar o cordelista e criar na associação. No início estava indo muito bem, mas mudou o presidente. O presidente estava se ocupando com as obrigações de repentista. Hoje está um pouco parado, infelizmente. A nossa intenção é trazer alunos, fazer oficinas. Você sabe que dentro de uma sala de 30 alunos, tem um ou dois que têm tendência para a rima, o cordel. Nossa intenção é aproveitar esses alunos. De algum maneira eles vem sendo aproveitados, mas não da maneira que a gente queria.


Site: Cultura Interativa

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