PELOS PRIMÓRDIOS DO CARNAVAL ESTANCIANO

Data 23/02/2018 16:50:00 | Tóopico: Manchete

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)
O carnaval é uma das grandes festas de tradição em Estância. O envolvimento das pessoas é tão forte quanto a dos festejos juninos. Aqui o Momo, rei da Loucura e da Folia é festejado com muita alegria e criatividade pelos blocos e escolas de samba. Porém, nos antigos carnavais não se falava em escolas de samba, nem em blocos, como os de agora, mas em Clubes.
Algumas pessoas da cidade costumavam patrocinar esses clubes ou permitiam o uso de suas casas como base para a confecção dos carros alegóricos. Como não podia ser diferente o trabalho de preparação era bem antecipado com o intuito de sair tudo perfeito.

Sendo uma festa pagã muito antiga no mundo, o carnaval tem lugar de origem incerta. Era comemorado nos primórdios por vários povos, inclusive egípcios, gregos e romanos ligando-se aos festejos de agradecimento aos deuses pela boa colheita. Carnaval vem do latim, carnis lavale, que significa “retirar a carne”. Com a força da igreja católica conquistada no período medieval, a festa ficou sob seu controle, permitindo às pessoas extravasar somente antes do jejum de quarenta dias (quaresma). Festa colada historicamente às fantasias tem como ingrediente a máscara, um acessório originário da religiosidade tribal existente em muitos lugares e com diferentes interpretações. Dados históricos mostram que a natividade brasileira, por exemplo, a usava para simbolizar animais, pássaros ou insetos. Mais tarde as máscaras passaram a integrar bailes e teatros. À custa das transformações culturais, atualmente os carnavalescos tem feito uso para chamar a atenção ou simplesmente incrementar.

No Brasil o carnaval foi introduzido pelos portugueses inicialmente com o nome de entrudo. Fontes históricas dão conta de que já era brincado no Rio de Janeiro em fins do século XVI. O entrudo era praticado também pelos escravos, virando depois um tipo popular. Distração considerada um tanto agressiva, era comum jogar nas pessoas pós, bolos de cera, tintas e um invólucro com água de diversos cheiros (inclusive xixi) chamados limões-de-cheiro. Às vezes a brincadeira chegava a um nível tão descontrolado que podia culminar em briga ou crime. Por isso com o passar dos anos essa forma de diversão foi sendo combatida.

Antônio Muniz de Souza, o sergipano que no século XIX fez viagens pelo Brasil inteiro, ao contar suas experiências no livro Viagens e Observações de um Brasileiro, publicado em 1834, refere-se ao entrudo, visto por ele em todas as Províncias, dessa forma.

Domingo, Segunda e Terça-feira (que são os tais dias chamados de Entrudo), os povos parecem ter perdido o sizo, pois à modo de loucos se lançam uns aos outros, só para o fim de se molharem e sujarem-se, com pós, tintas, barros etc etc sem o que não se satisfazem .

Mais adiante, sobre o estilo dos festejadores, escreve ainda o autor: “esgrimem, lutam, brigam e fazem as maiores extravagâncias de todo o universo”. Mas alguns dos elementos do entrudo foram absorvidos ou modificados pelo carnaval, como o caso do pó e o lança perfume, espécie de evolução dos limões-de-cheiro.

Com relação ao Estado (na época Província), um Regimento Interno de 1854, quando versa sobre as férias escolares, diz que faz parte, além de outros dias, “o carnaval, inclusive a quarta-feira de cinza”. Pelo menos em Sergipe, o termo carnaval praticamente só aparecia nas leis, embora houvesse um claro interesse das cidades e vilas sergipanas de riscar o entrudo do mapa. Essa ação sofria influência do que ocorria em muitas capitais, posto que a forma de brincar no império se desencontrava com o evoluído carnaval bem praticado por muitas cidades europeias. Por conta disso, no Rio de Janeiro, praticamente era o carnaval que se brincava nos anos de 1850. As duras leis daquela província iam minando o entrudo, mesmo que fosse difícil fiscalizar.

A cidade de Estância não ficou atrás. Na década de 1860, faz uso de uma lei municipal sugerindo trocar o entrudo pelo referido carnaval. Os transgressores pagariam uma multa de cinco mil réis ou dois dias de prisão. Mostrando-se um lugar experimentado tudo leva a crer que a cidade já brincasse o entrudo desde os tempos de vila.

Sergipe como um todo parecia seguir a mesma linha, pois as brigas, mais uma vez em decorrência do entrudo faz a Câmara Municipal de Aracaju sancionar uma lei proibindo-o, em 1870. Essa defesa era feita também pela imprensa dali, fazendo convite à rapaziada a substituir a tão desacatada forma de brincar pelo “civilizado” carnaval. Em Itabaiana a proibição veio em 1877. Outro lugar que manifestou desinteresse pelo entrudo foi a vila de Divina Pastora em que o proibia terminantemente “nas ruas desta vila e povoados, podendo este brinquedo ser substituído pelo carnaval”. A citada determinação constava numa lei do município de 1890.

Desde que surgiu o entrudo ou o carnaval muitos lugares da Europa serviram de modelo para as diversas cidades e vilas brasileiras, incluindo as de Sergipe. Muitos artigos chegavam às lojas do país vindos das cidades de Paris, Nice ou Veneza. Em Aracaju, o jornal O Conservador, de 18.02.1873, traz um anúncio da Loja de Variedades mostrando-nos suas novidades
CARNAVAL.

Grande e variado sortimento de fazendas de fantasia, chegadas de Paris. Riquíssimas combinações para os mais lindos vestuários.

Variedade de máscaras e preços cômodos. (continua)


(*) Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância.






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