Em Sergipe, renais crônicos enfrentam dificuldades no tratamento

Data 08/03/2018 10:20:00 | Tóopico: Saúde

Uma rotina dolorosa, cheia de dificuldades e com pouca perspectiva de mudança. São hospitais lotados, serviço restrito e uma longa fila de espera. Essa é a realidade para a grande maioria dos renais crônicos de Sergipe, principalmente aqueles que moram no interior do estado e enfrentam uma verdadeira via-crúcis para realizar o tratamento.
Rotina que o paciente José Laércio dos Santos, 48, enfrenta há mais de 15 anos. Durante três dias na semana ele sai de Graccho Cardoso, no sertão sergipano, com destino a Itabaiana, onde realiza a hemodiálise – o tratamento é oferecido em Aracaju, Itabaiana e Estância. Lá são mais quatro horas na máquina, quando vai chegar em casa, muitas vezes já passa da meia noite.Além de Laércio, uma van cedida pela prefeitura leva outros dois pacientes, todos com acompanhante, mas nem sempre o transporte está disponível. “Quando a van quebra o jeito é ir de ambulância, no aperto. Além do risco da estrada, do tratamento que não é fácil, ainda tem esse problema de carro.

O certo seria colocar uma regional mais perto, como em Glória, por exemplo”, diz a irmã e acompanhante de Laércio, a dona de casa Maria Edileudes Santos.Segundo a Associação dos Renais Crônicos e Transplantados de Sergipe (Arcrese), no estado existem 2.401 pacientes renais. Desses, 1.200 estão fazendo tratamento dialítico (hemodiálise ou diálise peritoneal), o restante são pacientes agudos, que não precisam de diálise e fazem o tratamento conservador, ou são transplantados.Para o presidente da Arcrese, Lúcio Alves, é grave a situação dos renais no estado e se nada for feito, pacientes continuarão morrendo na fila de espera. “Os governos precisam assumir as suas responsabilidades.

Os três entes federativos - Estado, União e Município - têm que entender que aquele paciente é vulnerável, é um paciente com imunidade reduzida e que não pode permanecer muito tempo ali. É preciso juntar todos os esforços para resolver o problema, não ficar nesse jogo de empurra, já que a responsabilidade é de todos, segundo a Constituição”, diz.Para o tratamento realizado em Aracaju, a Arcrese propõe o retorno da diálise peritoneal (o tratamento que o paciente faz em casa) e o retorno dos transplantes. “A primeira é a curtíssimo prazo, o retorno da diálise peritoneal que está nos contratos das clínicas com a Secretaria Municipal de Saúde. A outra medida de médio e longo prazo seria o retorno dos transplantes. Tendo essa duas medidas, será permitido desafogar o Huse, e fazer andar a fila de espera que cresce a cada dia”, afirma Alves.

Sem transplantes

Segundo a Arcrese, quem está na máquina precisa do transplante ou vai morrer na máquina. Mas o procedimento não é realizado em Sergipe desde 2012. Para quem espera na fila de transplantes, caso seja selecionado, a governo disponibiliza as passagens e uma diária de R$ 24,75, para o paciente e acompanhante, valor que mal paga uma refeição.A universitária Nayane Souza Oliveira, 25, faz hemodiálise há cinco anos e há três, está na fila do transplante.

Ela precisou reorganizar a vida por causa da condição e tenta manter uma rotina normal, como sair com amigos, ir à faculdade, etc.Diferente do Laércio, ela diz que não enfrentou muita dificuldade para fazer o tratamento nas clínicas conveniadas em Aracaju, mas quando o assunto é o transplante, a situação preocupa.“O que dá para fazer com R$ 24,75? Em muitos casos o paciente precisa ficar meses no local onde realizou o procedimento, e esse valor inviabiliza tudo. Muitos pacientes morrem aqui no estado por falta de vaga nas clínicas para fazer o tratamento, se os governantes olhassem com outros olhos, dessem prioridade para a saúde, acho que a situação melhoraria bastante”, disse a estudante.Nayane diz que sonha com o dia de sair da máquina.

“Essa não é uma vida fácil, é triste entrar ali e encontrar pessoas mais velhas, quando a gente encontra criança então, é de partir o coração. Quero fazer o meu transplante e ajudar as pessoas que estão a minha volta”.O doutor Lúcio Alves informa que em outubro do ano passado apresentou à Secretaria de Estado da Saúde (SES) a minuta de um projeto que existe desde 2015, dentro do programa “Transplante sem Fronteiras”, para retomada dos transplantes. O projeto já havia sido apresentado ao governo, mas, segundo ele, está engavetado.

“Eles prometeram há cerca de um mês e meio que o transplante voltará para Sergipe em seis meses, eu acho pouco provável, porque o que eles não fizeram em seis anos, como é que vão fazer em seis meses?”, questionou.Segundo a SES, os transplantes devem ser retomados no Estado ainda no primeiro semestre deste ano, com a conclusão do espaço que vai abrir o setor de nefrologia no Hospital de Urgências de Sergipe (Huse).

Mobilização Mundial

Neste ano o Dia Mundial do Rim, celebrado nesta quinta-feira (08), coincidiu com o Dia Internacional da Mulher e por isso o tema traz a preocupação com o público feminino: “Saúde da Mulher – Cuide de seus rins”.A doença renal crônica (DRC) afeta aproximadamente 195 milhões de mulheres em todo o mundo e atualmente é a oitava causa de mortalidade nesta população, com cerca de 600 mil mortes por ano. Dados da Sociedade Internacional de Nefrologia, também apontam que a prevalência da Doença Renal Crônica é maior em mulheres (14%) do que em homens (12%).A data comemorada anualmente toda segunda quinta-feira de março tem como o objetivo alertar para a importância do diagnóstico precoce.

Assim, o tratamento começa mais rápido e nem sempre o paciente chegará ao ponto de depender de uma Terapia Renal Substitutiva.Alguns grupos são apresentados como fatores de risco para problemas renais como: pessoas obesas, tabagistas, acima de 50 anos, quem tem história familiar de problemas renais, diabetes, hipertensão, ou problemas cardiovasculares – ou tem alguma dessas últimas três doenças.Entre os sintomas mais comuns estão urinar mais no período da noite, a urina apresentar textura e coloração diferente (espumosa, muito clara ou muito escura), inchaço no rosto e nas pernas. O cálculo renal também pode ser um sinal de que algo não vai bem.


Por Aline Aragão



Este artigo veio de Tribuna Cultural
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