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Sergipe

A ORDEM DE JUVÊNCIO DA OLARIA

Publicada em 07/10/25 às 11:07h - 118 visualizações

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A ORDEM DE JUVÊNCIO DA OLARIA
 (Foto: TRIBUNA CULTURAL/Divulgação)
O teto é sagrado, sinônimo de abrigo, de aconchego e bem-estar até mesmo dos mais pobres, que só têm poucas telhas sob as quais passa a vida. O luxo de muitos é a raiz do lixo em que tantos sonhos são impiedosamente sepultados, no chão da existência humana.

Juvêncio era caboclo pobre, desanimado de tudo, até de filhos, que contava apenas dois. Tivera uns oito, mas não vingaram por força do penoso desafio de se nutrir conforme as exigências físicas. Entendeu que a melhor opção seria montar uma olaria, já que por perto ninguém ainda se atrevera no ramo. O Cajueiro é próspero em casamentos e ajuntamentos, lugar afortunado de moças distintas e vistosas, o que favorecia à compra de telhas para a edificação de novos lares.

O barro estava ali mesmo, no entorno de sua casa, dentro do seu pedaço de terra. Além disso, havia água com fartura, o que facilitava o preparo no aloque. Tornou-se, pois, o primeiro oleiro de telhas do Cajueiro.

Assim que anunciou o início das atividades, passou a receber encomendas, o que corroborou seu intento.O ganho, porém, é ínfimo, mal dando para as despesas e o custeio da feira. Ainda assim, havia quem não pagava em dia, fazendo o negócio cair na lama.

Mover uma olaria é serviço pesado: cavar o barro, transportá-lo até o aloque, após se lhe retirar toda a impureza, dar a têmpera certa, com a água e o pisado, para ficar bem consistente, a ponto de desenhar a telha na coxa, tentando acertar o tamanho, a espessura e a embocadura. No início, saíam umas um tanto jambemgas.

O Fabrico, porém, guardava um gargalo medonho: sendo as telhas moldadas na parte superior da perna humana, o tamanho saía conforme ao tipo físico de cada oleiro. Se a encomenda fosse grande, exigindo o trabalho de dois ou três, a imbricação das telhas não dava certo, por ficarem com tamanhos irregulares.

Muitos fregueses, insatisfeitos, andaram devolvendo o produto, arrumando rixa com o proprietário da empresa, pois a devolução do dinheiro nem sempre era possível, de imediato, frente às despesas constantes do velho empreendedor.

Juvêncio, já chateado com esse vai e vem de telhas, e amargando algum prejuízo, resolveu pôr fim ao problema. Reuniu os fazedores de telhas e lhes determinou: de agora em diante, todo mundo vai ter que ficar com as coxas da mesma grossura... Ou fica, ou perde o emprego. Quem desrespeitar a ordem se papoque nos quintos dos infernos!

Jerônimo Peixoto - Advogado, memorialista e escritor



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