*Acrísio Gonçalves de Oliveira
Ubirajara Mendes Rodrigues começou a rabiscar quando menino e aos 15 já havia se profissionalizado como pintor. Com idade de 19 para 20 anos, foi para o Rio de Janeiro à procura de trabalho. Lá foi trabalhar em um restaurante como garçom, ao mesmo tempo que pintava nas horas vagas. Assim, passou a ser um garçom pelo dia, e nas noites cariocas, um pintor. Os patrões, percebendo seus dons artísticos, permitiram que ele expusesse seus quadros no restaurante. Como aqueles que o frequentavam, passaram a comprar os quadros e outros a encomendá-los, descobriu que poderia viver da arte, do seu talento. Daí, decidiu que definitivamente deveria ser pintor, e não garçom.
Ele teve como inspiração José Pancetti (1902-1958), artista paulista, e Jenner Augusto (1924-2003), artista sergipano e se referiu a esse último como primo. Sobre sua pintura, tida com “agressiva”, em que predominavam o azul, o vermelho e o amarelo, disse uma vez em entrevista o seguinte: “Senti a necessidade de criar novos valores cromáticos para minha pintura, o que consegui através dessas três pinturas”. O artista, em seu quarto no famoso bairro da Lapa, não parava de pintar, mesmo se passasse fome: “Por vezes deixava de me alimentar para poder ter com que comprar tintas e telas”. Na época sua arte expressava imagens de casarios e paisagens. Quando perguntado sobre sua origem, não renegou, falou que era de Estância.
No começo da ditadura militar, em 1964, Ubirajara tentou, num movimento precursor de uma feira de artes, expor seus quadros em praça pública no Rio, mas foi proibido e teve suas produções detidas. Indignado, recorreu aos meios de comunicação, obtendo “amplo apoio”, e conseguiu reaver seus quadros.
O tempo foi passando, e o olhar e o pintar do artista ainda mais se definiam. Pintava arquiteturas humildes. Pobreza. As mesmas coisas com que ele se deparava nos tempos de menino na sua terra natal. Em 1971, sua obra levaria um impulso, quando seus trabalhos seriam expostos numa feira de arte em Ipanema. Ali foi o artista que mais vendeu quadros. Em 1974, veio a Sergipe e expôs, de forma individual, suas telas na Galeria Álvaro Santos, da capital sergipana. Não sabemos se visitou Estância. Nessa mesma década de 1970 seu irmão Félix Mendes (1944-2013), também artista plástico, foi ao Rio de Janeiro e lá recebeu seu incentivo.
Vale destacar que nesse período Estância passava por um momento profícuo nas artes, estando na crista o artista plástico José de Dome (que morava no Rio de Janeiro, mas costumava visitá-la e servia de inspiração para jovens talentos) e a escultora Judite Melo. Em segundo plano, Félix Mendes, Eraldo Lima e por último artistas galgando carreira e que juntos até fizeram exposição de seus quadros na citada Galeria Álvaro Santos. Tão efervescente foi aquele momento que até se pensava em criar uma galeria de artes na cidade.
Ubirajara receberia convites para exibir suas telas em diversos hotéis cariocas. Também iria mostrar sua arte na mais importante galeria de Porto Alegre. Enquanto isso, através dos chamados “marchands” ou negociantes de artes, seus trabalhos já se encontravam espalhados pelo mundo, em países como Venezuela, Porto Rico, Portugal, Estados Unidos, Alemanha e Japão. Conta-se que seu maior trabalho foi decorar, quando se inaugurou, na década supracitada, o Flamengo Palace Hotel (atualmente Hotel Flamengo Palace). Foram um total de 149 telas, havendo em cada quarto duas delas, além de 11 telas que ilustravam o “halls” do hotel. Ao que tudo indica, todas, ou parte dessas telas, ainda decoram o luxuoso empreendimento.
Dizia a imprensa carioca que sua arte transmitia “uma ingenuidade, pureza e tranquilidade que vinha do seu íntimo”. Era um autodidata. No entanto, em seus quadros o artista plástico revolvia sua origem. Por isso, a imprensa não deixou de destacar: “Ubirajara consegue transmitir as cores e o clima de sua terra, a ensolarada Estância, cuja paisagem e personagens recria de maneira extremamente pessoal”. Sendo parente de Jenner Augusto, uma de suas inspirações, não o imitou, seguiu seu próprio padrão. Um padrão de sua origem em Estância, quem sabe dos rios Piauí e Piauitinga, quem sabe do Porto d’Areia com seus casebres de então.
Quando viu os quadros de “Bira”, Osmar Flores, famoso jornalista gaúcho, que chegou a ser redator dos jornais cariocas “Última Hora” e “Gazeta de Notícias”, apelidou-o de o “Mestre das Marinhas e do Alagados”, ficando, a partir, daí conhecido assim. Numa afirmação na imprensa, o professor Rogério Pfaltzgraff chegou a dizer, em 1976, que: “Ninguém, hoje, pinta céus e marinhas, alagados e casarios, mais belos que Ubirajara”.
Não sabemos se é falecido. Ubirajara Mendes é mais um gênio que passa despercebido no Berço da Cultura Sergipana, onde nasceu. Não é referência na cidade, apesar de sua arte ser conhecida em boa parte do mundo. Que ao menos sua história possa inspirar jovens talentos!
*Acrísio Gonçalves de Oliveira, escritor e pesquisador, professor do Estado e da Rede Pública de Estância