Por Marcelo Vieira*
“....O contrário da vida não é a morte , mas sim o esquecimento”,( Luiz Antônio Simas, historiador).
José Domingos dos Santos nasceu a (05/12/1954) na região do caminho do Porto na cidade de Estancia-se, apelidado por “Bebeça do Arraiá” ou “Bebeça da Batucada”. Caboclo de sorriso cativante, pescador artesanal. Homem simples, mas de um vasto acúmulo de saberes da vida prática, um exímio contador de histórias. Oriundo de família de pescadores e de fogueteiros. Seu irmão, Tonho Lixa, foi um dos fogueteiros mais afamados de seu tempo. Bebeça é considerado um mestre fazedor de cultura, um autêntico Guardião da cultura do nosso ciclo junino. De seus pais, ele Herdara o aprendizado com a pesca artesanal e um pedaço de uma malhada, onde construíra um Barracão de palha de coqueiro e bambu, o que seria a sede do seu Arraiá de forró.
Ele calçou as sandálias da nossa cultura popular. Bebeu na fonte do nosso antigo Pisa Pólvora. Seu contato com a nossa cultura se deu ainda bastante jovem. Sua história foi construída no chão de terra batida dos barracões de fogo ao pé do pilão, ao som dos tambores das batucadas e dentro do tradicional arraiá de forró. Costumeiramente, frequentava o barracão de fogo de seu Valdemar Grageru (Botequim) e Zé do Pó (Rupiada).
Em 1976, Bebeça, construiu com as próprias mãos um barracão de palhas de coqueiro e bambus, o que seria o maior, o mais afamado e o mais frequentado Arraiá de forró da cidade e região. Seu barracão tinha um perfil popular e se destacava pelo grande numero de pessoas que atraia por ser um espaço onde difundia a cultura do autêntico forró. Suas ruínas, hoje de alvenaria, são lembranças que resistem ao tempo, como se esperasse um resgate da sua memória. É um lugar de memorias vividas que marcou várias gerações, um lugar que se eternizou. Assim afirma ele, “Aqui se fundem para mim lembranças felizes e um sentimento de desilusão”, sobre o que sobrou do seu barracão de forró. Encontramos um homem apegado ao seu lugar, às suas raízes e ao seu tempo.
Em 1987 ele realiza mais um feito extraordinário, funda a histórica “Batucada Navegante” ou como ficou conhecida popularmente “Batucada do Bebeça” e em seguida a “Batucada Quebra Coco”. Sua criação foi inspirada nas antigas batucadas, de Zé Gaiatinho, de seu Valdemar Grageru (Botequim), de seu Totinha (Porto) e na de seu Zequinha. Sua organização coletiva e popular atraiu grandes batuqueiros da cidade: Zé Antônio, Dode, Cláudio Pacheco, Jackson do pastel, Nené do Porto, Negão Magal, Leomar do caminho do Porto, Osmar fogueteiro, Mareco, Michele, dentre outros. A “Batucada Navegante” veio reafirma a veia cultural de Bebeça, ela foi fundamental para consolidá-lo como mestre fazer de cultura, título concedido por aclamação popular, e seu valor repousa na consciência de seu povo.
Em meados dos anos de 1980, tradicionalmente nas noites de São João e São Pedro, ele liderava um grupo de homens (os navegantes) munidos de tambores e busca-pés, rumo à praça da igreja central da cidade, e entravam destemidos no meio da guerra cultural de busca-pés, batucando e tirando versos rimados. Em meio ao grande fumacê de pólvora que cobria toda a praça, o grupo circulava em torna da fogueira no pé do mastro, ritualmente batiam tambores e tirando versos ritmados. Em meio ao fogo cruzado, seus corajosos batuqueiros festejavam e animavam a noite do São João.
O esquecimento não pode ser usado como arma de destruição silenciosa para visibilizar a história das pessoas. Bebeça é um patrimônio vivo da nossa cultura, é uma personalidade impossível de não ser lembrada. Seu legado cultural o torna imortal e o colocar entre os grandes mestres das nossas tradições juninas, como: Enoque dos Santos, João Buiu, Salvador Profeta, Zé Vermelho, Tonho Lixa, seu Maurino, Zé dos Santos, Zé Paulo, Zé Carlos, seu Pedrosa, dentre outros. A história lhe tem sido justa, seu lega tem tido o reconhecimento e a legitimidade da comunidade, ele o tem aclamado, o honroso titulo de “mestre da cultura popular”, eliminando com a possibilidade da perversa frase, “esqueceram de mim”. Nesse São João queimaremos nas brasas da fogueira da memória a hipocrisia do esquecimento.
*Marcelo Vieira é Professor da Rede Pública