Recentemente o líder comunitário do Robalo, Firmo Santos, publicou nas redes sociais um registro de um mutirão realizado por moradores da região para erguer o muro do histórico Cemitério dos Náufragos constantemente atacado, seja pela ação natural do tempo, pelo descaso de sucessivas gestões municipais e estaduais ou, sobretudo agora, pela sanha do chamado setor imobiliário.
O Cemitério dos Náufragos é hoje um enclave rodeado por condomínios de alto padrão construídos de forma acintosa no seu entorno. Uma ligeira olhada mostra que ele ficou espremido de tal forma que a pressão sobre seu muro acoberta uma intencionalidade, a de removê-lo literalmente do mapa.
Em matéria de varrição desse pedaço de nossa história, já temos precedentes na avenida Inácio Barbosa, desde que se chamava Rodovia Sarney. Em frente ao Bar Ibisco, do outro lado da pista, um terreno guardava entre sua vegetação de restinga vários túmulos de pessoas mortas no célebre bombardeio dos três navios brasileiros na costa aracajuana - Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo.
Eu mesmo fotografei esses túmulos em 1996, hoje totalmente arrancados, num criminoso desrespeito à história e às famílias dos 551 mortos pelos bombardeios alemães. A explicação é óbvia: tais monumentos, pela importância na história do Brasil, representavam empecilhos à continuidade da futura exploração imobiliária para condomínios numa área privilegiada da cidade.
Para refrescar essa importância, não só para a história de Sergipe, mas para o país, foram esses torpedeamentos que empurraram o presidente Getúlio Vargas a declarar guerra à Alemanha em 1942. No nosso pequenino Sergipe, poucos eventos possuem tamanha relevância para nos colocar no primeiro plano do cenário da Segunda Guerra Mundial e no palco da história brasileira, ouro puro para historiadores e para o turismo.
Há cerca de dois anos o Governo do Estado anunciou uma vultosa verba, aprovada num pacotaço de empréstimos pela Assembleia Legislativa, para a construção de um Memorial dos Náufragos, providência importante, ainda que tardia. E continua tardando. Além de não sair do papel, o pouco que resta de resquícios materiais de nossa participação no teatro da guerra tem sido crescentemente apagado.
Diante do descaso geral, da conivência constante de todos os governos e do lamentável silêncio da opinião pública sergipana - quá-quá-quá! -, assistimos ao desesperado mutirão liderado por Firmo, feito da doação de cimento e tijolos por moradores pobres, para salvar o que o poder público se omite, talvez premido pelos tubarões do setor imobiliário, cujos interesses coincidem em pensamentos, palavras, atos, omissões e comissões.
Uma vergonha naturalizada pela sociedade, inclusive pelos bostíferos Conselhos de Cultura e academias inúteis. Naturalizada, também, pelo sucesso de público nas fuzarcas juninas patrocinadas pelo poder público em todo o Estado. O errado talvez seja eu e o certo são os governos: abaixo a memória. E viva a Terça do Arrocha!
Por Luciano Correia
É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê e escreve às segundas. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.