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A PRAÇA BARÃO E SEU BARCO À DERIVA

Publicada em 27/05/25 às 13:53h - 248 visualizações

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A PRAÇA BARÃO E SEU BARCO À DERIVA
 (Foto: TRIBUNA CULTURAL/DIVULGAÇÃO)

Acrísio Gonçalves de Oliveira (*)

A Praça Barão do Rio Branco em Estância, ao longo das intervenções das administrações municipais, foi submetida a transformações radicais. O maior espaço público no centro da Cidade Jardim, chegou a ser rodeada por palácios, hotéis de luxo, escolas e oficinas de jornais.

Conforme o livro Estância Secular (cuja segunda edição revisada e ampliada se encontra no prelo), o espaço nem sempre teve o nome acima citado. Sua primeira denominação foi Praça da Matriz (ainda popularmente chamada assim) e depois Praça Sete de Setembro, em memória à Independência do Brasil. Em 1912, com a morte do jornalista e diplomata Barão do Rio Branco (1845-1912), o intendente da época, Jeremias de Souza Carijó, alterou seu nome para Praça Barão do Rio Branco.

Antes e durante os anos 1920, esse amplo espaço era marcado por cascos de gado, cavalos e burros de carga ou pelas rodas de carros de boi. Nesses anos também seria construído o Grupo Escolar Gumersindo Bessa. Na década de 1930, jornalistas conseguiriam levantar o Monumento à Imprensa, que infelizmente logo desapareceria. Nunca fora reposto.

A Barão mudaria de cara a partir do final da referida década. O prefeito Leopoldo Araújo resolveu lhe dar cara nova. Em 1938, nela foram construídos o coreto e canteiros de jardins com calçadas que convergiam para seu centro, lugar em que o dito coreto se encontrava. Estância aprendia a cuidar bem mais de seus jardins. Também nesse espaço Leopoldo construiu o Monumento “Estância, Jardim de Sergipe”. Uma memória à estada do Imperador D. Pedro II (em 1860) na cidade, na qual teria proferido a frase que acima está entre aspas. No dia da inauguração, o romancista Jorge Amado (vítima das perseguições da ditadura Vargas), discursou. Falou, dentre outras coisas, em liberdade. Lamentavelmente o citado monumento seria propositadamente quebrado à picareta na primeira administração de Valter Cardoso. Esse também nunca foi refeito.

Recentemente, em 2023, a Praça Barão do Rio Branco passou por uma reforma (2,7 milhões de reais) na gestão do prefeito Gilson Andrade. Uma reforma que mudou sobretudo a visão espacial do lugar. Nela, além de serem retirados alguns elementos, outros passaram a fazer parte, como as malogradas construções que se encontram em vários pontos da praça, uma espécie de ponto de ônibus. Ou ainda o “cercadinho” na lateral esquerda da Catedral, que, além de retirar a paisagem fotográfica desse lado da dita igreja, escanteou o Monumento a Brício Cardoso, que foi jornalista e um dos maiores educadores e intelectuais sergipanos. Mas neste momento me deterei ao monumento do barco de fogo. Uma obra desproporcional.

O monumento retrata o profundo desconhecimento da história do barco de fogo na cidade, embora tenha matéria escrita de forma cuidadosa sobre o tema. Mesmo assim, ainda se fala em um “criador” do tal artefato, quando provamos que a tese é um erro grotesco! Mais triste ainda quando a mentira se propaga - muito mais agora no período junino - pelas escolas públicas e particulares da cidade. As crianças são orientadas a dizer que o “criador” do barco de fogo é Chico Surdo (1907-1971), quando isso é resultado de algo meramente implantado, inventivo. Absurdo. É fato que Chico Surdo dá continuidade à soltura do barco de fogo, e bem mais tarde, isso a  partir dos anos 1950. Quando ele morreu, disse a imprensa ter falecido “o criador do Cavalo de Fogo”. O que nada tem a ver com criador do barco de fogo. Este já era solto na cidade em 1904, portanto, num tempo anterior a Chico Surdo (1907). Assim, como num temerário chabu, a cidade segue embalada por uma espécie de infantilização da sua história pirotécnica, propalada pela desinformação.

Quanto ao monumento aludido, ele não se presta a simbolizar o majestoso artefato, por algo básico: o barco de fogo viaja no ar, e não no chão. Talvez imaginassem seus idealizadores que o barco de fogo fosse um artefato pirotécnico que andasse numa linha de trem, daí o implantaram no chão. De quem seria o erro? Teriam ouvido os fogueteiros? Como se sabe, o Barco de Fogo que os antigos fogueteiros, como Nylo Cotias, João Profeta ou José Ribeiro, consagraram na cidade é solto no ar, sobre um fio de arame. Sugerimos que a nova administração desloque-o para o Porto d’Areia, o que poderia servir de emblema do lugar, já que lá aportavam barcos parecidos com o do monumento em questão. Por ora, o barco da Barão, tachado por muitos estancianos como um exagero, está à deriva impedindo o trânsito de pedestres.

(*) É pesquisador e escritor, professor do Estado e da Rede Pública de Estância

    

 

 

 

 




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2 comentários


Dante Souza

28/05/2025 - 08:34:24

E necessário desembolorar a história viva que está sendo carcomida pelas gerações desinformadas utilizando apenas para funções virtuais. A matéria e pesquisa é contundente e realmente há na história do barco de fogo o seu verdadeiro inventor que deveria ter sido citado.Ahh e o artefato desproporcional apenas figura como uma chamariz e alegoria na fogueira do gasto público sem pesquisa nem medidas honestas da ignorância criminosa na desconstrução da memória histórica de Estância.Bravo Acrísio


Ashley Andrade

27/05/2025 - 14:53:06

Isso foi, de longe, a reportagem mais tosca que eu vi em minha vida. Lamentável que existam pessoas que pensem assim.


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