
Tem gente que, como uma ponte, nos leva a lugares aos quais, sem ela, não chegaríamos. É o caso de Joel Silveira. Não falo da construção que vence o Vaza-Barris para ligar Aracaju a Itaporanga.
Falo do bravo sergipano que, vencendo tempo e espaço, nos liga aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial tal como os testemunhou. Hoje, com justiça, é homenageado pela ponte homônima.
No livro “O Inverno da Guerra”, ele fala de pontes e caminhos, mais especificamente daquela estrada que ligava o quartel recuado à frente de batalha, onde os jornalistas passavam por verdadeiras odisseias, sobre um jipe, sempre que queriam chegar aonde a cobra tragava, à vera, seu fumo.
Era uma estrada escorregadia por causa do gelo, invisível por causa da névoa, esburacada por causa das bombas. Diante dos perigos, as forças encheram-na de placas. Como era o front da FEB, divisão integrada ao exército americano, havia advertências em português e inglês: “Devagar! Curvas perigosas!”, “Slow! Dip! ”, “Muito devagar!”, “Slow. Bridge”.
No entanto, como não pode não haver poesia onde há brasileiros, um aviso, cravado à beira da estrada dizia, na língua de Gregório de Matos: “vá devagar se tem pressa”.Não é um tiro de sabedoria?
Pedíssemos ao praça - provavelmente o encarregado de fincar aquele pedaço de pau no chão italiano -uma explicação da profundidade da frase, talvez ele, como um bom brasileiro, não discorresse.
O que não significaria ignorância, afinal tudo já está dito. Quem experimentou a realidade que a frase expressa certamente a conhece em todas as suas camadas e tensões.
A poesia tudo guarda em poucas palavras - eis sua beleza. Disse: “vá devagar se tem pressa”, porque se pode ter pressa sem que a pressa o tenha.
Sim, porque os humanos podemos nos ter a nós mesmos e não nos darmos. Vá devagar, pois a pressa indica a necessidade de se chegar, e a única forma de fazê-lo é com cautela; caso contrário, pode derrapar até um abismo, pode atolar num buraco de lama, pode, pelo barulho, indicar sua posição ao inimigo.
A frase é tão contraditória quanto a estrada que, feita para levar ao destino, é repleta de armadilhas. Por isso é perfeita. É tão irônica quanto a atitude brasileira diante das dificuldades.
É nossa no meio da terra de ninguém: um gato de luz armengado na escuridão da guerra.
Por Antônio Guedes
JL Política